02 agosto 2006

A inferioridade brasileira, uma conveniente convicção da elite
Carlos Lessa
02/08/2006
Nossa elite reafirma, periodicamente, a inferioridade brasileira. São poucos os momentos em que elogia o país. Fala bem de nossa paisagem. Apresenta a feijoada, com orgulho, ao visitante. Exalta a escola de samba, admite nossa excepcional musicalidade e se veste de verde e amarelo no campeonato mundial de futebol. Muito pouco mais escapa. Para a elite, os problemas brasileiros não se derivam de seu comportamento. É preguiçosa em aprofundar a discussão para identificar-lhes as raízes. Como Pôncio Pilatos, lava as mãos em relação a eles. O membro da elite gosta de repetir que "o Brasil é assim mesmo?", que "nada aqui funciona". Com sua experiência turística, inveja Nova Iorque e Miami. Seu avô fazia o mesmo com Paris e Londres. Estes são os lugares da perfeição, daí "no exterior tudo é limpo"; "o povo é bem educado" e "as coisas funcionam".
O diagnóstico da elite, quando não atribui explicitamente a culpa a variáveis étnico-sociais, se reveste, hipocritamente, de uma proposta saneadora e ambígua: "é necessário educar o povo". O general Figueiredo já disse que muitos recrutas não sabiam o que era pasta de dentes.
Quando focaliza a conjuntura, atribui dificuldades à incompetência dos governantes do momento, ou da corrupção inerente ao político, como gênero. Nossa elite deplora a corrupção. Considera-a endêmica. Diz que condena a famosa Lei do Gerson, segundo a qual sempre é possível dar um jeito e levar vantagem. Contudo, se tiver segurança em apagar com propina a notificação - ou seja, a certeza da impunidade fiscal - suborna o guarda de trânsito, gosta de sonegar impostos, recorre sem pudor ao "sabe-com-quem-está-falando" e exibe alguma carteira de prestígio. Considera a lei "para os outros" e busca resolver seus problemas com auxílio de sua caderneta de contatos.
A elite apóia, em matéria político-econômica, as recomendações neoliberais. Nos últimos anos, ao consolidar a idéia de que o governo gasta muito, gasta mal e desperdiça recursos, fez prosperar a impunidade moral na sonegação, quase transformada em gesto cívico. Concorda em comprimir os absurdos gastos públicos com o custeio da máquina, salários de funcionários em administração e políticas sociais. É favorável a reduzir a insuportável carga tributária. Permanece em silêncio quanto ao gigantesco serviço de dívida pública, com juros reais repugnantes (os mais elevados do planeta) - afinal, é necessário controlar a inflação. Não diz nem condena a prática empresarial de empurrar os preços para cima. Não alardeia o próprio protagonismo em sustentar e prosperar com a inflação: quem desfruta dos juros da dívida pública é a fração mais rica da elite, ou 20 mil famílias que, em 2006, dividirão pelo menos 80% de cerca de 160 bilhões de reais.