31 agosto 2006
Um encontro com o presidente Lula
Paulo Nogueira Batista Júnior
31/08/2006
Na quinta-feira passada, o ministro Guido Mantega me telefonou transmitindo convite do presidente Lula para encontro com um grupo de intelectuais. Agradeci, mas perguntei: "A presença caracteriza apoio ao candidato?". "Não", disse ele, "é apenas uma troca de idéias."
Procurei ser delicado, mas não pude deixar de destoar um pouco.
"Mas, no campo econômico, o governo foi uma decepção. As políticas foram exageradamente restritivas e, como resultado, o crescimento foi medíocre. O Banco Central tem sido especialmente rígido. Poucos sabem, mas a nossa inflação é hoje ligeiramente inferior à dos EUA! É também inferior à média da inflação nos mercados emergentes. Não obstante, a nossa taxa de juro básica continua em torno de 10% reais, quando a média nos principais países desenvolvidos e emergentes vem oscilando entre 1% e 1,5%."
Como o presidente parecia ouvir atentamente, resolvi ir um pouco mais longe: "Permita-me dizer que já existe no seu governo uma espécie de modelo do que pode ser feito na área econômica. O senhor nomeou para a cúpula do Itamaraty duas pessoas do ramo, Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães -isso o senhor tem agora na Fazenda com Guido Mantega. Sob a orientação da Presidência, e em articulação com seu assessor Marco Aurélio Garcia, o Itamaraty foi sendo renovado aos poucos com o afastamento gradativo de pessoas ligadas ao "antigo regime" dos principais cargos em Brasília e da maioria das embaixadas importantes. Com isso, criaram-se as condições para executar uma nova política externa. O mesmo precisa ser feito na área econômica, que continuou excessivamente sujeita a influências estrangeiras e do sistema financeiro".
Terminei com uma pequena provocação: "Não podemos continuar como estamos: entra governo, sai governo, e a diretoria do BC sempre dominada por pessoas do sistema financeiro ou ansiosas para desenvolver uma carreira brilhante nesse sistema. Espero que, num eventual segundo mandato seu, o Brasil entre em campo no BC e no resto da área econômica com menos jogadores escalados pelo lado adversário".
Da boca para fora
Jânio de Freitas
31/08/2006
Na exaltada reação às referências do "programa" de Lula ao seu governo, Fernando Henrique fez a observação correta de que "não adianta dizer que o sistema é culpado. O sistema tem muitos erros, mas moral é conduta, é pessoal, é individual. Quem falha tem que ser punido porque falhou." Poderia desenvolver a observação, com muita utilidade. Preferiu outra via: "Quando há desvio ou alguma coisa equivocada, ele [Lula, claro] passa a mão na cabeça e diz que o companheiro errou. Não. O senhor errou, porque não puniu o companheiro. Isso precisa ser dito e cobrado".
Como precisa ser dito e cobrado, também, que isso mesmo foi feito no governo Fernando Henrique. Flagrado e gravado ao fazer tráfico de influência em benefício de empresa estrangeira, dentro mesmo do Planalto, o embaixador Júlio Cesar Santos recebeu na cabeça a mão protetora do presidente e, ainda mais, o presente de uma embaixada em Roma. Os que avançaram no "limite da responsabilidade", para manipular privatizações, e tantos outros, saíram incólumes do risco de CPIs, por ação direta da Presidência.
A sinceridade melhorou um pouco, mas em mão única.
Cadê a política?
Roberto Jefferson
31/08/2006
É a opinião de muitos que esta é a eleição presidencial mais chata e vazia vista nas últimas duas décadas.
Numa eleição onde as campanhas estão, por assim dizer, uniformes, o que parece ter sumido é a própria política. Será que alguém consegue encontrá-la neste próximo mês?
Exportando empregos - parte III
Cristiane Brasil
31/08/2006
Provavelmente, nos próximos anos, a Volkswagem fará a transferência de suas fábricas do Brasil para a China. No fundo, o Brasil está sofrendo um processo retroativo. Estamos voltando no tempo e, com a manutenção dessa política externa, em breve estaremos somente exportando commodities. Dessa vez ao invés de sermos uma colônia dos EUA, como no passado recente, passaremos a ser um mercado colônia dos chineses, que levarão nossa matéria prima e nos devolverão produtos com valor agregado. Simplesmente trocamos de colonizadores.
Paulo Nogueira Batista Júnior
31/08/2006
Na quinta-feira passada, o ministro Guido Mantega me telefonou transmitindo convite do presidente Lula para encontro com um grupo de intelectuais. Agradeci, mas perguntei: "A presença caracteriza apoio ao candidato?". "Não", disse ele, "é apenas uma troca de idéias."
Procurei ser delicado, mas não pude deixar de destoar um pouco.
"Mas, no campo econômico, o governo foi uma decepção. As políticas foram exageradamente restritivas e, como resultado, o crescimento foi medíocre. O Banco Central tem sido especialmente rígido. Poucos sabem, mas a nossa inflação é hoje ligeiramente inferior à dos EUA! É também inferior à média da inflação nos mercados emergentes. Não obstante, a nossa taxa de juro básica continua em torno de 10% reais, quando a média nos principais países desenvolvidos e emergentes vem oscilando entre 1% e 1,5%."
Como o presidente parecia ouvir atentamente, resolvi ir um pouco mais longe: "Permita-me dizer que já existe no seu governo uma espécie de modelo do que pode ser feito na área econômica. O senhor nomeou para a cúpula do Itamaraty duas pessoas do ramo, Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães -isso o senhor tem agora na Fazenda com Guido Mantega. Sob a orientação da Presidência, e em articulação com seu assessor Marco Aurélio Garcia, o Itamaraty foi sendo renovado aos poucos com o afastamento gradativo de pessoas ligadas ao "antigo regime" dos principais cargos em Brasília e da maioria das embaixadas importantes. Com isso, criaram-se as condições para executar uma nova política externa. O mesmo precisa ser feito na área econômica, que continuou excessivamente sujeita a influências estrangeiras e do sistema financeiro".
Terminei com uma pequena provocação: "Não podemos continuar como estamos: entra governo, sai governo, e a diretoria do BC sempre dominada por pessoas do sistema financeiro ou ansiosas para desenvolver uma carreira brilhante nesse sistema. Espero que, num eventual segundo mandato seu, o Brasil entre em campo no BC e no resto da área econômica com menos jogadores escalados pelo lado adversário".
Da boca para fora
Jânio de Freitas
31/08/2006
Na exaltada reação às referências do "programa" de Lula ao seu governo, Fernando Henrique fez a observação correta de que "não adianta dizer que o sistema é culpado. O sistema tem muitos erros, mas moral é conduta, é pessoal, é individual. Quem falha tem que ser punido porque falhou." Poderia desenvolver a observação, com muita utilidade. Preferiu outra via: "Quando há desvio ou alguma coisa equivocada, ele [Lula, claro] passa a mão na cabeça e diz que o companheiro errou. Não. O senhor errou, porque não puniu o companheiro. Isso precisa ser dito e cobrado".
Como precisa ser dito e cobrado, também, que isso mesmo foi feito no governo Fernando Henrique. Flagrado e gravado ao fazer tráfico de influência em benefício de empresa estrangeira, dentro mesmo do Planalto, o embaixador Júlio Cesar Santos recebeu na cabeça a mão protetora do presidente e, ainda mais, o presente de uma embaixada em Roma. Os que avançaram no "limite da responsabilidade", para manipular privatizações, e tantos outros, saíram incólumes do risco de CPIs, por ação direta da Presidência.
A sinceridade melhorou um pouco, mas em mão única.
Cadê a política?
Roberto Jefferson
31/08/2006
É a opinião de muitos que esta é a eleição presidencial mais chata e vazia vista nas últimas duas décadas.
Numa eleição onde as campanhas estão, por assim dizer, uniformes, o que parece ter sumido é a própria política. Será que alguém consegue encontrá-la neste próximo mês?
Exportando empregos - parte III
Cristiane Brasil
31/08/2006
Provavelmente, nos próximos anos, a Volkswagem fará a transferência de suas fábricas do Brasil para a China. No fundo, o Brasil está sofrendo um processo retroativo. Estamos voltando no tempo e, com a manutenção dessa política externa, em breve estaremos somente exportando commodities. Dessa vez ao invés de sermos uma colônia dos EUA, como no passado recente, passaremos a ser um mercado colônia dos chineses, que levarão nossa matéria prima e nos devolverão produtos com valor agregado. Simplesmente trocamos de colonizadores.